quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A apreensão do cenário pelo leitor: Auto da Compecida

O calor nordestino, as relações sociais, a religião, a fome e a miséria fazem parte do cenário e da vida dos personagens que estão na obra de Ariano Suassuna, “Auto da Compadecida”, a qual ganhou versão cinematográfica em 2000. Além de personagens marcantes – como João Grilo e Chicó – o que nos chama a atenção é o cenário que lemos/vemos nas duas obras.

Dependendo do gênero literário, o cenário pode se apresentar de distintas maneiras ao leitor/espectador. É desse modo que vamos pensar como o cenário aparece na peça teatral Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e na sua versão cinematográfica.

Considerando a peça, o cenário pode ser percebido de duas formas: a) quando encenado, ele é formado pelas falas dos personagens, as quais constroem a “história” da peça; e pela “decoração” do palco; e b) tratado como texto, a sua percepção se dá também pelas falas dos personagens, as quais expõem os seus dramas; e pelas direções de palco (rubrica), tudo isso é representado por meio da linguagem. Quem articula boa parte desse cenário, tanto na encenação quanto no texto escrito, é o personagem palhaço, uma espécie de “narrador”. Neste caso, é no momento da leitura que o leitor vai construindo na sua imaginação o provável cenário da história.

Na linguagem cinematográfica, o cenário se dá através da junção do espaço com as falas dos personagens em ação, enfim, as imagens. Nesta linguagem, o cenário é mais facilmente apreendido, pois se forma justamente a partir das cenas em que o espaço é constituído pelas aparições da igreja, da padaria, da casa do padeiro, da delegacia e da fazenda, cenários devidamente forjados.

Além disso, como o cinema requer outra linguagem, é necessária uma adaptação, e com ela, temos a criação de personagens que não existem na peça: o Cabo Setenta, o Valentão e a Rosinha (filha do Major Antonio de Moraes, na peça não se trata de filha e sim de filho). É justamente dessa adaptação do texto original que surgem cenários também distintos dos da peça.

Em suma, propomos que o cenário pode ser apreendido de diferentes maneiras dependendo do gênero literário, seja ele cinematográfico ou textual.

Parla

Bibliografia:
ROSENFELD, Anatol. O teatro épico. Rio de Janeiro: Editora Coleção Buriti, 1965.
SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1990.
ARRAES, Guel. O Auto da Compadecida. Globo Filmes, 2000.

As adaptações sempre são fiéis?

Não são raras as adaptações de livros para cinema. Geralmente bons livros acabam mesmo tendo uma versão para cinema, afinal já têm um histórico de sucesso, o que facilita, muitas vezes, a aceitação do filme pelo público. O nome de um bom livro por trás do filme acaba fazendo muita diferença. Mas é necessário saber fazer a adaptação, para que não se perca a qualidade encontrada no enredo original.
Anjos e Demônios é um livro de Dan Brown que foi adaptado para o cinema, protagonizado pelo personagem Robert Langdon, interpretado por Tom Hanks, um professor de simbologia na universidade de Harvard. A história é sobre o assassinato de um padre católico e físico do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), Leonardo Vetra, que pesquisava sobre antimatéria. Esta tem um alto poder destrutivo, uma amostra de 250 miligramas pode aniquilar um raio de 9 quarteirões. Robert é chamado para investigar o caso pelo diretor do CERN, já que, antes de ser morto, Leonardo fora marcado com um ambigrama da palavra Illuminati. Os Illuminati eram uma organização anti-religiosa que havia sido extinta há séculos. O representante desta organização avisa que matará 4 cardeais (fato agravado por ser o dia do conclave), todos marcados a fogo, uma a cada hora, a partir das 7 da noite. E que a antimatéria acabará com a cidade do Vaticano exatamente à meia-noite. Para ajudar Robert, entra em cena Vittoria Vetra, filha adotiva de Leonardo, que está acabada com a morte do pai, mas, apesar disso, se mostra uma mulher forte. Os dois saem em direção ao Vaticano, tentando impedir a sua destruição.
Mas no filme muita coisa muda. Para começar, no filme o diretor do CERN nem sequer é citado, enquanto no livro é um dos personagens que dão maior suspense à história. No livro, o diretor é o primeiro a ver o corpo de Leonardo, enquanto no filme a primeira a saber do fato é Vittoria. Vittoria é retratda com muito pouca fidelidade no filme quando o quesito é personalidade, no livro ela se mostra com muito mais atitude, desejo de vingança pela morte do pai, enquanto no filme ela se mostra quase indiferente. Outro detalhe importante, e que faz uma diferença enorme especialmente para quem gosta de acompanhar sequências, é o tempo em relação ao livro seguinte, O Código da Vinci: nos livros, O Código da Vinci ocorreu aproximadamente um ano depois de Anjos e Demônios, enquanto nos filmes ele vem antes. Esta é uma das maiores falhas da adaptação, já que isso altera fatores como a experiência de Robert em casos como o ocorrido, já que no segundo livro ocorre uma fato parecido. Inclusive, no livro O Código da Vinci, há referências do ocorrido no Vaticano e a Vittoria. Outro detalhe é o envolvimento de Robert com Vittoria: no filme ele não demonstra afetividade alguma com ela, e no livro os dois terminam fazendo planos românticos para quando se encontrarem novamente.
A fidelidade ao enredo original em um filme é importantíssima, é o que dá credibilidade ao filme. Infelizmente, nisto a adaptação de Anjos e demônios peca. Mas, para quem gosta de filmes menos melosos, mais secos, até que é interessante. A versão mostra mais o lado de suspense do livro. As cenas dos assassinatos são realmente de assustar.
Para quem gosta mais de adaptações fiéis, uma boa dica é primeiro ler o livro e depois assistir ao filme: acaba possibilitando uma visão mais crítica de ambos os lados. Isso vale não somente para Anjos e Demônios, mas também para a maioria das adaptações.