De um lado uma floresta, com uma comunidade formada pelas mais variadas espécies de animais: tartaruga, esquilo, até mesmo gambá, entre outros. Do outro lado um condomínio de casas luxuosas. Ambos os ambientes separados por uma cerca viva. Este é o cenário básico do filme "Os Sem Floresta", estreado há certo tempo (em 2006), que rende, porém, uma discussão que extravasa os anos.
Comunidade de um lado, condomínio de outro, separados por uma cerca. Cenário familiar? É nítida a possível relação com o Muro de Berlim. Para quem não se lembra, foi construído durante a Guerra Fria (capitalismo versus socialismo) e separava a Alemanha Ocidental (capitalista) da Oriental (comunista). Ou seja, n´Os Sem Floresta: de um lado a comunidade de animais (o comunismo), de outro o condomínio: cada um por si e no seu respectivo terreno (o capitalismo).
A história do filme se desenvolve com o advento de um guaxinim, que para saldar uma dívida com um urso, manipula os membros da comunidade para roubarem a comida de uma casa. É aí que começa a briga: o lado da floresta (o lado selvagem, o comunismo) contra o lado do condomínio (a civilização, o capitalismo). E importante lembrar: quem desenvolve a história é um ser marginal (o guaxinim), não pertencente a nenhum desses “lados”, e que manipula os outros em seu benefício.
É interessante também notar a diferença de comportamento entre os habitantes da floresta, sempre calmos e serenos (porém “se deixam” manipular pelo personagem marginal, com exceção do chefe - a tartaruga) em contraposição ao histerismo egoísta dos habitantes “civilizados” humanos, que tentam exterminar “os invasores” de seu ambiente. Há certa troca de valores: os animais selvagens adquirem características racionais (sabem pensar), enquanto que os humanos tornam-se animais selvagens. Pode-se perfeitamente estabelecer o paralelo com a sociedade atual.
Existem inúmeros outros detalhes (como por exemplo, o cachorro que mora na casa: possível metáfora daquele que está fora de seu lugar natural e, ao mesmo tempo, foi “adaptado”, “domesticado”) que poderiam ser ressaltados, porém cabe ao expectador exercitar-se para identificar outras semelhanças.
O final do filme não dá para contar, mas pode-se adiantar que é diferente do da Guerra Fria (levando em conta a relação). No mais, está aí a recomendação: “Os Sem Floresta”, filme permitido para crianças e adultos.